"Terás visto o Mar". Fotógrafo João Pina amplia a memória a partir do Tarrafal

"Terás visto o Mar". Fotógrafo João Pina amplia a memória a partir do Tarrafal

Cerca de 250 imagens, cartas, filmes e outras experiências integram a exposição "Terás visto o mar? Memórias do Tarrafal", que o fotógrafo João Pina inaugura a 22 de outubro no Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), em Lisboa.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Foto: RTP

Com curadoria de Emília Tavares, a exposição retoma o arquivo familiar de João Pina para construir uma narrativa visual sobre o campo de concentração do Tarrafal, em Chão Bom (ilha de Santiago, Cabo Verde), cruzando documentos históricos, fotografias de época e o trabalho desenvolvido pelo fotógrafo ao longo dos últimos anos.

O conjunto inclui as fotografias originais feitas no campo pelo bisavô, reproduções realizadas por João Pina a partir dos negativos de arquivo e imagens da sua autoria, num percurso que viaja por diferentes formas de apresentar e interpretar a memória.

A exposição reúne ainda cartas, objetos e três filmes, a partir de testemunhos recolhidos e outros centrados nas viagens do fotógrafo e na reflexão sobre o material encontrado. Desenhos, experiências de pintura e uma série de serigrafias completam o acervo.

"Enquanto eu fotografo, também vou experimentando outras coisas e tentei escolher, com a Emília Tavares, aquilo que faria mais sentido mostrar nesta fase para que o público entenda que, partindo da fotografia, vou tentando e brincando com várias outras coisas e, depois, isso resulta naquilo que as pessoas vão ver no museu", afirmou.

A exposição "não começa nem termina na fotografia nem nas cartas", explicou João Pina à Lusa, distinguindo-a do livro "Tarrafal" (2024), que publicou a partir da descoberta do arquivo familiar. Um espaço tridimensional, distribuído por nove núcleos, permitiu-lhe diferentes aproximações ao arquivo e aos acontecimentos.

Na Galeria Capelo Sul, o percurso terá um corredor central marcado por uma série de imagens da bisavó do fotógrafo, Herculana da Costa Dias Carvalho, a depositar flores e a fazer vénias a cada uma das 32 campas de presos políticos que morreram no Tarrafal. Em torno desse eixo, os restantes núcleos apresentam diferentes partes da história, articulando a dimensão familiar e mais íntima com a memória política do campo.

Mas a ideia de uma exposição sempre esteve presente, desde a noite do verão de 2019, em que João Pina abriu a caixa que guardava cartas, fotografias e documentos relacionados com a presença do seu avô Guilherme da Costa Carvalho, preso político no Tarrafal entre 1949 e 1951, e com as visitas da família.

"Terás visto o mar?", é uma das perguntas feitas pelo bisavô do fotógrafo ao filho Guilherme na correspondência trocada entre ambos, um isco sugerido pela curadora Emília Tavares que prontamente aceitou.

"Depois o meu avô acaba por responder ao meu bisavô, que eles de vez em quando iam ao mar, porque as latrinas eram despejadas no mar. Então aí a preocupação dele deixou de ser se ele já viu o mar, mas sim, `tem cuidado com os tubarões`", conta João Pina.

Lembrando que o oceano, apesar de estar sempre presente na ilha, representava também o isolamento e a impossibilidade de escapar, João Pina lê o mar, nesta troca de palavras, sem contemplações: "era a barreira da fuga, era a barreira da liberdade".

Por outro lado não esconde a emoção sentida perante o "amor incondicional" entre pai e filho, mesmo à distância, ou apesar dela.

"Para mim foi muito bonito imaginar a preocupação do meu próprio avô ao escrever aos pais para os tentar tranquilizar, sendo que ele é que está na posição fragilizada. Independentemente dos pontos vistas políticos, que eram diferentes, essa preocupação com o outro, e de tentar, na medida do possível, apaziguar a dor (...) isso acho absolutamente extraordinário", afirmou.

"Terás visto o mar? Memórias do Tarrafal" fica em Lisboa até 24 de janeiro de 2027, seguindo depois para a Alfândega do Porto, onde será apresentada entre março e julho do mesmo ano.

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